Insônia, o novo mal do século

Deita na cama. Rola para um lado e para o outro. Olha o relógio. Suspira. Amanhece. Parece que um “trator” passou por cima de você. De acordo com Renato Martins, 34, doutor em Medicina do Sono pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), a insônia é a queixa mais comum ao longo do ciclo da vida adulta, além de ser uma experiência universal. Porém, é apenas uma dos cerca de cem distúrbios do sono existentes.

“Além da preocupante e crescente privação crônica de sono, a prevalência dos transtornos do sono vem aumentando a cada década. Destacamos insônia e distúrbios respiratórios relacionados ao sono como os mais comuns”, diz o também coordenador do Ambulatório de Medicina do Sono da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), do Ambulatório Araújo Lima (AAL) e do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV).

De acordo com o otorrinolaringologista e membro da Associação Brasileira do Sono (ABSono), a insônia é uma condição preocupante, com a necessidade de acompanhamento médico. Ela ocorre, principalmente, na terceira idade e é frequente entre mulheres por conta de depressão e fatores hormonais. Em casos que os sinais permanecem por mais de três meses, ocorrendo cerca de três vezes por semana, já são considerados no estágio crônico.

“Os sintomas de insônia se caracterizam pela incapacidade de iniciar ou manter o sono; sono de má qualidade; sintomas diurnos de fadiga ou baixo rendimento e insatisfação com a qualidade de sono obtida. A crônica também pode estar associada a outras morbidades, como desenvolvimento de transtornos psiquiátricos (depressão, ansiedade, abuso de álcool e hipnóticos), riscos de acidentes de carro e aumento da mortalidade”, ressalta Martins.

Ronco e apneia
Dos distúrbios respiratórios relacionados ao sono, o médico ressalta os roncos — presentes em 90 a 95% dos casos de apneia obstrutiva. Mais comum entre os homens, pioram com a idade, o aumento de peso e a ingestão de bebida alcoólica. Já a apneia obstrutiva do sono é uma síndrome causada por pausas respiratórias, acometendo 33% da população masculina de meia idade (30 a 60 anos) e da feminina (após a menopausa).

“A apneia é uma doença crônica, progressiva e incapacitante. Além do ronco, os principais sintomas são pausas respiratórias, sono agitado e sudorese noturna. Ao acordar, o portador pode apresentar boca seca, dor de cabeça, sensação de sono não reparador e cansaço. Durante o dia, sonolência excessiva, dificuldade de concentração e de memorização, queda da libido sexual e irritabilidade”, informa o especialista.

Nada de compensar no fim de semana
Estudos recentes indicam que 63% das pessoas relatam dormir menos de 7 horas durante os dias de semana e 25% dormem menos de 6 horas, compensando durante o fim de semana. Porém, segundo Renato Martins, também professor substituto de Otorrinolaringologia na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a privação de sono — mesmo que de apenas 45 a 60 minutos— causa alterações psíquicas e neurocognitivas significativas.

“O sono é um processo ativo, uma função essencial do organismo humano, da mesma forma que a alimentação. Todas as funções do cérebro e do organismo são influenciadas pelo sono. Todo ser humano necessita dormir algumas horas a cada 24 horas; entretanto, não é a quantidade de horas dormidas que determina a normalidade desta função, mas, sim, a qualidade do sono obtida nestas horas e a necessidade individual”, enfatiza.

Crie hábitos saudáveis
Confira abaixo dicas para dormir bem, por Renato Martins, otorrinolaringologista:

- Adote horários regulares de sono, ou seja, deitar e levantar habitualmente nos mesmos horários, mesmo nos finais de semana.

- Evite cochilos prolongados à tarde. Quando a sesta (ou descanso após o almoço) é hábito, ela não deve ultrapassar uma hora para não prejudicar o sono noturno.

- O quarto deve ser confortável e ser utilizado apenas para dormir. Quarto não é lugar de trabalho, de lazer, nem de comer.

- Não se deve ter televisor, computador, telefone, ou qualquer aparelho eletrônico no local onde se dorme.

- Banho morno duas horas antes de dormir pode ajudar a relaxar e abaixa a temperatura corporal, o que é necessário para desencadear o sono.

- Recomendam-se exercícios físicos, regularmente, até 6 horas antes do horário principal de sono.

- Exponha-se regularmente a luz solar pela manhã, sinalizando ao corpo que está na hora de ficar ativo. Diminua o ritmo de atividades, reduzindo a iluminação à noite.

- Evite agentes estimulantes com cafeína (café, chá, chocolate, refrigerantes e nicotina), refeições pesadas e excesso de líquidos antes de deitar.

- O uso de álcool como sedativo deve ser evitado e se consumido pelo menos 6 horas antes do horário de dormir. A nicotina também funciona como estimulante e deve ser evitada.

- O ideal é ir para a cama com sono e não insistir. Quanto mais quiser dormir, mais nervoso ficará e terá dificuldade em relaxar. Retire o relógio da vista.

Publicado originalmente em

==> Foto: Divulgação

0 comentários:

Postar um comentário