Negligenciada, tripanossomose se espalha

Uma doença que poucos conhecem, difícil de ser diagnosticada e para a qual não há medicamentos específicos disponíveis no mercado está se espalhando sorrateiramente pelos rebanhos. É a tripanossomose ou tripanossomíase bovina, enfermidade causada por várias espécies de protozoários do gênero Trypanosoma, o mesmo que provoca a doença de Chagas nos humanos, transmitida pelo inseto barbeiro.

No caso dos bovinos, o vilão é o Trypanossoma vivax, protozoário extremamente patogênico que causa estragos por onde passa, com a morte significativa de animais num curto espaço de tempo. Os tabanídeos – insetos grandes e hematófagos conhecidos como mutucas – atuam como vetores da doença e se suspeita que também a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans) tenha sua parcela de culpa. Mas tudo leva a crer que são as más práticas de manejo as principais responsáveis por sua rápida disseminação.

Registrada pela primeira vez no Brasil no início dos anos 1970, num rebanho de búfalos no Estado do Pará, a tripanossomose ficou restrita à Região Norte até 1995, quando um surto foi registrado em Poconé, no Pantanal do Mato Grosso.

De lá para cá, vem se espalhando e hoje encontra-se praticamente em todo o território nacional. Para se ter uma ideia da agressividade da doença, o Estado de São Paulo, que havia registrado o primeiro caso da enfermidade em 2008, somou nada menos do que 16 surtos de tripanossomose entre 2013 e 2015.

Em 15 dos 16 casos, a introdução do Tripanossoma vivax foi relacionada à compra de animais de outras propriedades. “Entre 30 e 45 dias depois de serem introduzidos no rebanho, esses animais, aparentemente saudáveis, apresentaram febre, apatia, aborto, icterícia e anemia. Muitos morreram”, afirma o veterinário Fabiano Antônio Cadioli, da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp/Araçatuba, especialista no assunto.

Nos casos relatados, a doença atingiu o rebanho de duas fazendas de gado de corte. Em um dos criatórios, voltado à produção de gado de elite, a suspeita é que a transmissão tenha sido feita por insetos, uma vez que a propriedade vizinha comercializava constantemente animais vindos de outras regiões. “O estresse do transporte muitas vezes deprime o sistema imunológico. Se o animal estiver infectado, a imunossupressão favorece o aparecimento da doença”, explica.

A outra fazenda conciliava a atividade leiteira com confinamento. As vacas haviam sido diagnosticadas com a tripanossomose e a doença chegou até os animais confinados. “Neste caso a utilização de seringas e agulhas em comum entre os rebanhos por ocasião da vacinação pode ter transmitido a doença para o gado de corte”, afirma.          

O fato de a tripanossomose ser uma doença mais comumente disseminada em rebanhos de leite está intimamente associado a uma prática rotineira de manejo na atividade leiteira: a aplicação da ocitocina nas vacas em lactação. “É um hormônio que facilita a descida (liberação) do leite e que muitos produtores aplicam todos os dias antes de cada ordenha”, explica o veterinário Thiago Souza Azeredo Bastos, veterinário da Universidade Federal de Goiás.

Bastos acompanhou o primeiro surto da doença no Estado, registrado em maio deste ano (veja quadro). A transmissão iatrogênica (por uso de agulhas infectadas, por exemplo) é considerada a principal forma de disseminação do Tripanossama vivax. “É mais eficiente do que qualquer mosca: 0,5 mililitro de sangue contidos numa seringa podem conter milhões de protozoários”, afirma Fabiano Cadioli, da FMV.

A tripanossomose tem sintomas semelhantes à tristeza parasitária bovina, complexo de doenças que envolve a babesiose e a anaplasmose. Esta condição tem levado os produtores a cometerem um grave equívoco. Inadvertidamente, tratam o animal como se ele estivesse acometido pela tristeza, aplicando para a tripanossomose a mesma dosagem do medicamento à base de aceturato de diminazeno prescrito para a doença transmitida pelos carrapatos.

O pesquisador chama a atenção para as consequências da medicação incorreta. “A subdosagem tem induzido a uma resistência do protozoário e dificultado muito os tratamentos nos rebanhos onde o diagnóstico inicial foi impreciso.” O problema se agravou e atualmente há protozoários resistentes ao princípio ativo.

Apesar de não debelar a doença, o aceturato de diminazeno destrói a maior parte dos protozoários na corrente sanguínea. Com a redução do Tripanossoma vivax circulante, o animal melhora rapidamente sua condição. O que o medicamento faz é eliminar os protozoários sensíveis. Sobram os resistentes. Mesmo assim, após uma ou duas aplicações, aparentemente sadio, mas infectado, o animal muitas vezes é vendido para outro produtor, que não tem ideia do seu histórico. “Basta uma situação de estresse, como uma viagem longa, para trazer a doença novamente à tona. E ela volta com força total”, afirma.

Com a resistência do Tripanossoma vivax ao aceturato de diminazeno, resta ao produtor recorrer ao cloreto de isometamídio. O problema é que não existem medicamentos à base do princípio ativo disponíveis para compra no Brasil. Sua importação é concedida pelo Ministério da Agricultura, somente em casos especiais, “de emergência”, mediante solicitação junto ao órgão feita por um médico veterinário. “O problema é que entre reunir toda a documentação pedida, enviar ao ministério, obter autorização e receber o medicamento leva de 30 a 60 dias e a doença é muito rápida”, diz Thiago Bastos.

No desespero, muitos produtores conseguem o medicamento ilegalmente, por meio de contrabando via Bolívia, Colômbia e Paraguai. Mas por que o governo não facilita a importação do medicamento? O próprio ministério responde, dizendo que havia um único produto à base de cloridrato de isometamídeo registrado no Brasil.

A licença, concedida em 2005, expirou em abril de 2008 e sua renovação não foi concedida por “força de impedimento de ordem legal vigente à época”, conforme o Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas (DFIA), do Mapa. Em janeiro de 2015, a empresa solicitou a reemissão da licença anterior, que foi indeferida pela área jurídica do ministério. “Cabe esclarecer que desde 2005 nenhuma nova solicitação foi recebida pelo ministério”, diz o departamento, em nota.

Para o pesquisador Fabiano Cadioli, da Unesp, a liberação em si não resolve a questão e o uso indiscriminado pode agravar a situação. “A administração do cloreto de isometamídio é complexa e requer critério.” Ao contrário dos medicamentos a que os produtores estão habitua­dos a lidar, com a dosagem sendo calculada a partir do peso vivo do animal, no caso do cloreto de isometamídio a prescrição deve levar em conta o estágio da doença no rebanho e o “desafio epidemiológico” a que os animais estão submetidos.

Segundo ele, nos rebanhos em que há alta infestação por insetos hematófagos, uso de ocitocina, compartilhamento de agulhas e seringas, além da frequente introdução de animais comprados, é preciso utilizar dosagens mais altas. Além disso, o produtor deve resistir à tentação de restringir o tratamento aos animais com sintomatologia clínica nos rebanhos onde a doença se instalou. “Animais gordos, aparentemente sadios, podem estar infectados. É preciso tratar todo o plantel, do bezerro ao touro.”

Além disso, monitorar a evolução da doença por meio da sorologia a cada três meses ou uma vez a cada seis meses, dependendo da prevalência da tripanossomose. “É um procedimento essencial para saber como a doença está evoluindo”, afirma. O pesquisador acompanhou casos em que o surto foi controlado, mas a sorologia deixou de ser feita. “A doença voltou e tivemos que recomeçar o trabalho do zero.” Para Cadioli, a falta de conhecimento e de treinamento dos veterinários, que muitas vezes nem ouviram falar da doença na universidade, é um agravante.

A primeira medida para evitar a introdução da tripanossomose no rebanho é redobrar a atenção ao comprar animais de outra propriedade. A quarentena é uma estratégica recomendada, principalmente quando se adquirem animais de regiões endêmicas, como o Pantanal, Triângulo Mineiro ou noroeste Paulista, ou áreas onde a doença tenha sido ­diagnosticada.

Cadioli recomenda que os animais fiquem isolados por 30 dias e que sejam feitas, nos primeiros 15 dias, duas coletas de sangue, uma por semana, para análises sorológica e parasitológica.

Se o animal adquiriu a doença num período inferior a 20 dias, haverá grande quantidade de protozoários no sangue, detectados pelo exame parasitológico. “Caso a infecção seja mais antiga, o sistema imune do organismo teve tempo suficiente para produzir anticorpos, o que será denunciado por um exame sorológico”, diz Cadioli. Segundo ele, juntos, os exames se complementam, já que ambos têm suas limitações (veja quadro abaixo). “Dessa forma fechamos o cerco no diagnóstico ao parasita”, diz o veterinário.

É preciso também evitar o compartilhamento de seringas e agulhas. No caso do gado de leite, onde a doença é mais frequente, recomenda-se o uso de seringas e agulhas descartáveis, inclusive para a administrar a ocitocina e até mesmo vacinações.

Os cuidados devem se estender aos materiais usados durante as técnicas de inseminação artificial, como luvas e bainhas, que devem ser descartadas. Outra medida importante é o controle de vetores, como a mosca-dos-estábulos, além de morcegos hematófagos.

Doença assusta em Goiás
Bastaram apenas 20 dias para que a produção de leite de uma propriedade em Ipameri, GO, despencasse de 1.500 litros para 700 litros diários. Pouco tempo depois, outros sintomas se sucederam, como diarreia, letargia, lacrimejamento e perda progressiva de peso.

Não tardou para que algumas vacas doentes, em decúbito lateral, não conseguissem mais se levantar. De um plantel de 300 fêmeas, 24 morreram e 40 foram abatidas. “A princípio, pensamos se tratar de uma intoxicação por micotoxina ou até mesmo um caso de tristeza parasitária, mas os exames confirmaram que era tripanossomose”, relata Thiago Souza Azeredo Bastos, veterinário da Universidade Federal de Goiás.

Acredita-se que a doença tenha entrado no Estado vinda das bacias leiteiras de Minas Gerais, de onde saem fêmeas para reposição e muitos machos cruzados para confinamento. Segundo Maurício Velloso, presidente da Comissão de Pecuária de Corte da Faeg (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás), o órgão está pleiteando junto ao Ministério da Agricultura e a Agrodefesa (Agência Goiana de Defesa Agropecuária) a obrigatoriedade de um atestado negativo para os animais que transitarem entre os Estados, como já é feito no caso da brucelose e tuberculose. “Estamos enfrentando um caso sério e difícil. Temos que tomar uma atitude”, diz.

Diagnóstico mais rápido e seguro
Um teste inovador promete dar mais agilidade e segurança ao diagnóstico da tripanossomose no Brasil. Trata-se do Lamp, um método molecular de análise concebido para detectar mais rapidamente a doença do sono, causada pelo Trypanossoma brucei, transmitida pela mosca tsé-tsé (Glossina SP), enfermidade relativamente comum em áreas rurais do continente africano.

Por aqui, os testes começam a ser utilizados a partir de 2016. “Em 30 minutos será possível saber se um animal está ou não infectado pelo agente da tripanossomíase”, diz Fabiano Cadioli. O pesquisador coordena a iniciativa, pioneira na América do Sul. Atualmente, há três categorias de análises realizadas no País para diagnóstico da doença. Além do PCR, que busca o DNA do protozoário, há os testes parasitológico e sorológico.

O primeiro é o mais utilizado a campo. Por meio da análise de sangue, vasculha-se o invasor. O problema é que, até 18 dias após o animal ter sido infectado, há uma grande quantidade de parasitas na corrente sanguínea, o que facilita sua detecção. Depois desse tempo, no entanto, a população do T. vivax tende a oscilar. “Tem dias em que aparecem (no sangue), tem dias que não, sem nenhuma ordem lógica. Isso compromete o resultado do exame”, diz.

O teste sorológico também tem suas restrições. Neste caso, a detecção da doença se dá pela presença de anticorpos no soro, líquido separado do sangue após sua coagulação. Na fase inicial da infecção, o organismo ainda não produziu as pro­teínas de defesa. Animais debilitados pela doença, por sua vez, tendem a não mais produzir ou produzir poucos anticorpos que não aparecem no teste.

Há muitos protozoários circulantes, mas o sistema imunológico já não consegue responder. “É o que chamamos de ‘falso negativo’. O animal está infectado, apesar de o teste não acusar”, diz Cadioli.

*Matéria originalmente publicada na edição 77 da Revista Mundo do Leite fevereiro/março 2016.

O texto está acessível em

==> Foto: Fabiano Cadioli

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