O que esperar da terceira temporada da série 'The Crown'?

A teoria de Montesquieu, que reparte a força do estado em três poderes, não entrou ainda no coração dos homens. Por mais que saibamos que juízes, parlamentares e presidentes têm igual poder perante a Constituição, o povo gosta mesmo é de reis, rainhas e imperadores. São eles que povoam nosso imaginário popular.

A monarquia pode ser um regime ultrapassado, mas as pessoas ainda escolhem o “rei do futebol”, não o “presidente do futebol”. E a única monarquia que ainda guarda certo glamour e remete a tempos idos é a britânica. Daí vem o excepcional (e merecido) sucesso da série The Crown, da Netflix. Além de apresentar a trajetória de Elizabeth II de uma maneira mais humanizada, ao longo das duas temporadas, o espectador pode entrar em contato com aspectos históricos curiosos e interessantes. Como o caso de citadas colônias britânicas, como a Rodésia, que hoje chamamos de Zimbábue. O Reino Unido estabeleceu um protetorado, em 1889, na região, que era dividida em Rodésia do Norte (a atual Zâmbia) e Rodésia do Sul (que depois seria Rodésia e, por fim, Zimbábue). Também temos a passagem sobre o nevoeiro, de 1952. Neste ano, uma grande névoa de poluição cobriu a cidade de Londres. Cerca de 10 mil pessoas morreram e medidas políticas sobre o controle da poluição foram tomadas após o ocorrido.

Mas o seriado mostra mais. Ter a coroa na cabeça faz da vida de Elizabeth quase um inferno e a leva a situações que são tudo que se possa imaginar, menos tediosas.

Esta é a surpresa que The Crown mostra. Aquela senhora que aparece na televisão, com chapéus exóticos, Elizabeth II, teve e tem uma vida para lá de interessante, cheia de desafios e contradições a resolver, a maior parte delas insolúvel.

Sua melhor amiga e confidente, sua irmã Margareth, quer se casar com um homem divorciado e ela, como monarca e chefe da Igreja Inglesa, não pode permitir. Seu marido, Philip, é um homem orgulhoso, forte fisicamente e em personalidade e se recusa a aceitar a primazia real, fazer parte da Casa de Windsor, morar na residência real, abdicar da profissão. E convenhamos, não deve ser fácil aceitar isto.

O enredo, feito por um incontroverso especialista na família real, Peter Morgan, parece, às vezes, “andar sozinho”, de tão bom que é. Por “andar sozinho” entenda-se que as cenas se sucedem com uma naturalidade que quase não se faz notar a mãos dos diretores. Isto é um elogio aos diretores (são seis!), longe de ser uma crítica. A estória parece deslizar. Mal vemos o tempo passar e já estamos esperando pelo próximo capítulo.

Se é cedo ou não para se apontar isto, pouco me importa, mas afirmo, desde já, que há brilhantismo nas tomadas internas e, principalmente, nas externas. É que há sincronia entre câmera e desenvolvimento da trama. Como o diálogo na família real é quase sempre cifrado, poucas vezes direto, muitas das tensões da série são passadas por observações curtas e aparentemente banais e, mais ainda, com simples olhares. Aí entra a agilidade da câmera, sem prejuízo de apontar que os roteiristas, quando possível, conseguem explicar mesmo a aparente inexplicável linguagem cifrada.

Nestes momentos cruciais, de poucas palavras, seria (e é o que acontece) essencial que a câmera participasse desta parte lusco-fusco do roteiro, sendo ágil quando se precisasse enfatizar uma palavra importante dita, ou sendo lenta  naquelas em que os olhares têm de ser realçados pelo fator tempo (não necessariamente lento) para que se perceba o nível de angústia entre os personagens. Aqui falamos, especialmente, do estresse que envolve a rainha e seu consorte.

Muitos críticos dizem que o foco da série na segunda temporada se desloca da rainha para o príncipe Philip (interpretado por Matt Smith). Ocorre que a interpretação de Elizabeth II por Claire Foy beira a perfeição. E, de qualquer forma, os problemas do príncipe Philip estão diretamente ligados às exigências que uma coroa faz à sua mulher.

Mas é justo dizer que Matt chega a suscitar o ódio do expectador. Parece inexplicável que ele não vislumbre que a monarquia está acima de sua vontade e, mais importante, da vontade de sua mulher, a rainha. O espírito público dele é atrofiado, como não seria de se esperar de um membro de casa real (príncipe da Grécia e Dinamarca, antes do casamento).

Mas este conflito é perfeitamente compreensível em comparação com o que mostram os seriados americanos. Quase todo seriado americano vai, em um capítulo qualquer, sem aviso prévio, colocar a questão da prática do interesse público versus a convivência familiar

A família de um presidente, de  um primeiro-ministro, de uma rainha, deveriam ser estirpes de pessoas inteligentes e sopesar o óbvio: que terão também de arcar com sacrifício de ver pouco o ente querido, que está salvando eventualmente milhõezinhos aqui e acolá da morte certa. Mas como a família é endeusada (teoricamente, claro) no American Way of Life, eles não conseguem deixar de impor sua agenda moral disparatada à entediada humanidade.

Príncipe Philip não tinha noção que ficaria sempre, eternamente, um degrau abaixo da rainha? Um mínimo, repito, um mínimo de leitura de livros de história e cultura geral mostrariam isto a ele. Como um membro também de uma casa real não compreende que a monarquia não é somente a rainha, é uma instituição?

Ah! Sua insurgência é irracional, vem do obscuro inconsciente? A segunda temporada (que realmente dá mais espaço a Matt Smith) mostra que a hipótese da ignorância, infelizmente, é a mais provável.

Desnecessário dizer que a recriação da época feita pela televisão londrina beira a perfeição, com figurinos, arquitetura e design de interiores magníficos. The Crown é uma das séries mais caras da história da televisão. Somente na primeira temporada, o orçamento girou em torno de US$ 130 milhões.

Mas nada disto pararia de pé se não fosse o enredo envolvente, que vai em um crescendo sem fim, e a escolha dos atores. É verdade que John Lithgow atua muito bem como Winston Churchill. Mas teve um azar terrível, pois na mesma época de efervescência da série, Gary Oldman recriou Churchill (no filme Darkest Hour, por estas bandas renomeado O Destino de uma Nação), que lhe trouxe o Oscar de melhor ator.

Mas quem se destaca na série, mesmo, é Claire Foy, a Elizabeth II. Aos poucos ela vai, nuance após nuance, mostrando como se exerce o poder que lhe foi conferido em sua máxima expressão. Claire brilha neste crescente contato com o poder, que vem em paralelo com um galopante ritmo do seriado. Estas duas intensificações, do enredo e da mudança da protagonista, caminham juntas. Proposital ou não, fazem de The Crown uma das melhores séries em andamento, já na sua segunda temporada encerrada.

No desenrolar do seriado, que, ao que parece, somente se dará no final deste ano ou no começo do outro, certamente continuará a bem-sucedida alternância entre problemas privados e públicos que Elizabeth II, enfrentará. Em ambos os campos, quem conhece um pouco de história sabe que sobrarão adversidades à rainha.

No plano dos contratempos públicos, não é cometer o crime do spoiler chamar a atenção do leitor para a relação de Elizabeth II e os primeiros-ministros, especialmente sobre o seu processo de escolha. Isto porque este tema permeará a vida inteira da protagonista, com mais ou menos intensidade e demonstrará como é errada a expressão comum brasileira de que fulano ou fulana é como a “rainha da Inglaterra”, como se a única função da monarca fosse posar para fotos como chefe de estado. Não era e não é assim. Se Elizabeth não pode ir cortando cabeças para lá e para cá como Henrique VIII, também passa longe da realidade a sua eleição na psique coletiva como ícone do poder somente aparente.

Como os roteiristas tratarão estas questões políticas é motivo de grande expectativa. Se eles já trataram de temas mais espinhosos com maestria, não é isto que nos autoriza a crer que destrincharão a meticulosa, emaranhada e até idiossincrática política inglesa, ao menos em seus momentos mais candentes. A conferir.

Quando tratamos de fatos históricos, é preciso ter em mente que todos nós, eu incluso, temos uma tendência a subentender uma não racionalizada noção de que estamos no culminar de uma sucessão de fatos que levou a que a minha vida, de meu país e de meu mundo fosse como está hoje. Esta noção subconsciente que costumamos ter, esta “intuição”, como ocorre com várias outras intuições, está a quilômetros da realidade.

Para escapar a este óbvio é preciso ter em mente que a história não é um movimento, cujo único objetivo foi chegar à data de hoje, 2018. Parece ridículo, mas nós costumamos “sentir” o movimento histórico como a série causal que inevitavelmente veio desembocar neste dia em que peguei o pão na padaria, dei comida para o gato, etc.

Mas quando pensamos que viver é entrar em um trem andando em alta velocidade, e que hoje, mais que nunca, ele anda rápido, vamos enxergar outra Elizabeth II. Diminuindo ou não os poderes da protagonista, mudando ou não o sistema, crise após crise, um fato é notório: paira mais alto a coroa inglesa quando ela ocupa a cabeça de Elizabeth II. The Crown é brilhante. Mas Elizabeth Alexandra Mary é mais.

Sobre o autor - José Eduardo Leonel, juiz federal em Jundiaí, juiz convocado no Tribunal Regional Federal da 3ª. Região por oito anos, professor licenciado de Direito na Faculdade Autônoma de Direito (FADISP), possui doutorado em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (2006), sendo mestre em Direito Processual Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001). Atua na área de direito, com ênfase em direito penal.

==> Foto: Divulgação

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