Programação Cine Brasília: Semana de 12 à 18 de julho de 2018

Grande estreia desta semana no nosso cinema, Hannah foi construído para o brilho da protagonista. E é verdade: a atriz Charlotte Rampling dá uma masterclass de interpretação neste segundo longa-metragem de Andrea Pallaoro. A actriz consegue transmitir muito com pouco, praticamente sem proferir grandes diálogos ou demonstrar emoções efusivas. Diga-se que o trabalho de Chayse Irvin na fotografia contribui, e muito, para exacerbar a solidão e a melancolia que rodeiam o quotidiano da personagem principal. Não faltam planos compostos com rigor e brio, com a maioria deles conseguindo realçar o isolamento social de Hannah, seja quando ela está em casa, ou no metro, ou em outros cenários. Andrea Pallaoro segue um caminho minimalista ao abordar temáticas como a alienação no espaço urbano ou a busca de uma mulher para se reencontrar. Para isso deixa que os silêncios preencham as lacunas, praticamente a transformando Hannah num puzzle que incita o espectador a decifrar sua sensível e complexa trama.
   
    Estilizado drama histórico passado na França nos anos 20, Nos Vemos no Paraíso permanece em cartaz e é simplesmente um filme espetacular. Esta grande produção traz de uma maneira inteiramente original temas como amizade, trauma familiar de guerra, corrupção e sobrevivência num ambiente virtualmente hostil. O ator e diretor Albert Dupontel (que já havia feito Bernie) foi muito feliz na sua adaptação as novela de Pierre Lemaitre, The Great Swindle. Seu envolvimento foi tal que ele deu a si mesmo o principal papel em seu filme. A ação se inicia em novembro de 1919. Dois sobreviventes das trincheiras, um desenhista genial, o outro modesto contador, decidem montar uma farsa aos monumentos em memória às vítimas de guerra. Na França dos loucos anos vinte, a empresa será tão perigosa quanto espetacular. Tragicomédia de uma rara intensidade, o filme de Dupontel é construído, todo ele, de forma a maravilhar visualmente o espectador.
   
    Também prossegue em cartaz no Cine Brasília um longa-metragem singular: o ambiente é um safári da África, em que turistas desembolsam quantias exorbitantes para a caça de búfalos, cervos, zebras, girafas, entre outros. O diretor Ulrich Seidl conseguiu a autorização para acompanhar caçadores vindos da Alemanha e Áustria, estabelecendo uma relação de neutralidade para assim conseguir a aproximação necessária para o filme. Algumas cenas são fortes, mas Safári se nega a ser cúmplice das atrocidades que testemunha para fazer um comentário sobre toda a questão hierárquica nesses safáris, expondo o caçador como um ser mais selvagem que a caça e que se visualiza no topo de uma cadeia social em que negros tiram seus sustentos dessas deploráveis diversões. E pensar que o Brasil não está tão longe desse cenário com a possibilidade da autorização da caça de animais silvestres…

    Outra atração de nossa programação, A Vida Extraordinária de Tarso de Castro é um documentário sobre um dos personagens centrais da imprensa independente brasileira. Muito ativo nos anos 1970 e 1980, O Pasquim ficou conhecido por figuras como Ziraldo, Millôr e Jaguar, responsáveis por suas principais paródias políticas. Mas este filme pretende resgatar outra figura igualmente importante da publicação: Tarso de Castro, um dos fundadores do periódico. Os diretores Zeca Brito e Leo Garcia enxergam em Tarso uma representação quase ideal do jornalismo: debochado, espontâneo, sem preocupação em incomodar os poderosos, extraindo as suas informações diretamente das conversas nos bares cariocas. Os melhores momentos do documentário se encontram na contextualização social. A existência de um jornal satírico se torna ainda mais excepcional por ocorrer em pleno AI-5, durante a ditadura militar. O filme explora de modo eficaz os métodos de trabalho nos tempos da censura e efetua uma rápida comparação com o jornalismo chapa-branca de hoje.
   
    Por fim, o Cine Brasília exibe um filme politicamente oportuno e necessário: em Imagens do Estado Novo - Partes I e II a voz neutra do diretor Eduardo Escorel não deve ser interpretada como evidência de impessoalidade. O cineasta questiona o próprio projeto. Apesar do destaque às imagens, desconfia delas como fontes precisas de transmissão da realidade. “Imagens filmadas omitem mais do que mostram", diz Escorel, logo nos primeiros minutos, ciente de que as imagens, ainda mais as oficiais, são parciais. Afinal, realçam aspectos em detrimento de outros dependendo dos interesses em jogo. Escorel se debruça, em vários momentos, sobre o diário de Getúlio, mas também questiona o seu valor como documento histórico, na medida em que expressa uma perspectiva particular e, portanto, “não menciona tudo o que acontece”.

Hannah
(Drama/França/Bélgica/Iália/95min/2018)
De Andrea Pallaoro                     
Com: Charlotte RamplingAndré WilmsJean-Michel Balthazar
Sinopse: Hannah é uma mulher que perdeu quase tudo que acreditava ser sua vida. Interpretada pela cultuada atriz inglesa Charlotte Rampling, Hannah tem que lutar com as consequências da prisão do marido. Uma nova realidade econômica, o rejeição do filho, a completa solidão, a velhice. Nas aulas de teatro e nos momentos na piscina constroem a busca por uma nova identidade, Através da história de Hannah, temos um retrato íntimo do isolamento e da alienação no mundo atual, a dificuldade de ter e manter relações, as linhas divisórias entre a identidade individual e as pressões sociais. Por Hannah, Rampling recebeu o Prêmio de Melhor Atriz na Mostra de Veneza em 2017.
Classificação indicativa: 12 anos

Nos Vemos no Paraíso
(Comédia dramática/França/117min/2018)
De Albert Dupontel                
Com: Nahuel Perez BiscayartAlbert DupontelLaurent Lafitte
Sinopse: Em novembro de 1918, alguns dias antes do Armistício de Compiègne, Édouard Péricourt (Nahuel Pérez Biscayart) salva a vida de Albert Maillard (Albert Dupontel). Ambos não têm nada em comum, a não ser a guerra, e são obrigados a se unir para sobreviver. Anos depois, Albert e Édouard planejam uma farsa para desmascarar o Tenente Preadelle (Laurent Lafitte), que tenta fazer fortuna com corpos das vítimas da guerra.
Classificação indicativa: 16 anos
                
Safári
(Documentário/Áustria/91min/2018)
De Ulrich Seidl                        
Sinopse: Em meio a grande selva da África, turistas caçadores alemães e austríacos estão de férias no local. Em meio aos antílopes, zebras e gnus que pastam pela selva, eles ficam na espreita, esperando suas presas. Eles atiram, pulam de emoção e posam para uma foto com o animal abatido. Um documentário sobre a natureza humana e a morte.
Classificação indicativa: 12 anos

A Vida Extraordinária de Tarso de Castro
(Documentário/Brasil/90min/2018)
De Leo Garcia e Zeca Brito
Com: JaguarJoão Vicente de CastroPaulo Cesar Pereio 
Sinopse: Tarso de Castro foi um dos fundadores do maior jornal independente da história do país: o Pasquim, muito ativo entre os anos 1960 e 1980. Ele enfrentou a pressão da ditadura para criar histórias satíricas e críticas em relação ao governo e à cultura nacional, junto de nomes como Millôr, Ziraldo e Jaguar. O documentário investiga os seus métodos, seus amores e suas polêmicas.
Classificação indicativa: 12 anos

Imagens do Estado Novo – Partes I e II
(Documentário/Brasil/120min/2018)
De Eduardo EScorel                     
Sinopse: Recorrendo a vasto material de arquivo, entre cinejornais, fotografias, cartas, filmes familiares e de ficção, trechos de diário e canções populares, o documentário examina a herança do Estado Novo (1937-1945), comandado por Getúlio Vargas. A partir da comparação e análise desses registros heterogêneos, produzidos para fins diversos, o filme reavalia esse momento histórico em suas fontes de inspiração externas, formas de funcionamento e contradições.
Classificação indicativa: 10 anos

Programação: 

Quinta-Feira (12/07)
14h00 – Imagens do Estado Novo – Parte I
16h50 – Safári
18h30 – Hannah
20h10 – Nos Vemos no Paraíso

Sexta-Feira (13/07)
14h00 – Imagens do Estado Novo – Parte II
16h50 – A Vida Extraordinária de Tarso de Castro
18h30 – Hannah
20h10 – Nos Vemos no Paraíso

Sábado (14/07)
14h00 – Imagens do Estado Novo – Parte I
16h50 – Safári
18h30 – Hannah
20h10 – Nos Vemos no Paraíso

Domingo (15/07)
14h00 – Imagens do Estado Novo – Parte II
16h50 – A Vida Extraordinária de Tarso de Castro
18h30 – Hannah
20h10 – Nos Vemos no Paraíso

Segunda-Feira (16/07)
18h30 - Hannah
20h10 – Nos Vemos no Paraíso

Terça-Feira (17/07)
(Não haverá sessão)

Quarta-Feira (18/07)
14h00 – Imagens do Estado Novo – Parte I
16h50 – Safári
18h30 – Hannah
20h10 – Nos Vemos no Paraíso

==> Foto: Divulgação

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