Artigo: Dizem haver dois brasis

Erosão civilizatória: o terreno onde plantamos, para colher o que viemos a ser – um BRIC, um país emergente, depois de décadas (perdidas) na condição deprimente de nação latino-americana periférica e dependente  – está eivado de fissuras que vão se ampliando e encontrando umas às outras, formando voçorocas incontroláveis, de extensão imprevisível, que a tudo engolem. O que fazer para recuperar o terreno e voltar a pensar em semeadura?

Dizem haver hoje dois brasis: o dos “coxinhas” e o dos “mortadelas”. Se isso o fla-flu entre esquerda (?) e direita (?) dá a impressão de ser verdade, no debate mal ajambrado que acontece nas mídias convencionais e alternativas (uma contra a outra), o Brasil real revela ser esta uma falsa imagem: há um contingente enorme de famintos que seria capaz de devorar todas as coxinhas e mortadelas que a indústria nacional é capaz de produzir  – que não cerra fileiras nem com os “coxinhas” vermelhos nem com os “mortadelas” amarelos; e, de outro lado, flana uma meia dúzia de donos de meio mundo, comprando políticos, partidos, decisões parlamentares e medidas governamentais, com o dinheiro que ganham superexplorando a força de trabalho (desejando-a totalmente terceirizada e desprovida de direitos) e surrupiando aos cofres públicos, via sonegação e elisão fiscal. Permeando essa festa dantesca, conduzindo-a feito animadores de bordel, políticos de aluguel preocupados apenas com o conforto e a ostentação típicos de caipiras deslumbrados com as quinquilharias da quermesse urbana – o “baixo clero” parlamentar ávido pelos pratos de segunda do “presidencialismo de coalizão” e os compadres que tomam assento no Executivo como se tivessem por tarefa cuidar do próprio latifúndio improdutivo ou precariamente ocupado por reses.

Dizem haver hoje dois partidos: o dos corruptos e o dos que não o são. Se isso as “Lava-jatos” e canais de TV e mídias impressas tradicionais dão a impressão de ser verdade, no quotidiano de um sistema de apuração de fatos e “distribuição” de penas vai ficando cada vez mais claro do que se trata: engrendrou-se um regime policial e judiciário à margem do Estado de Direito, que funciona como escudo protetor dos agentes a mando de interesses econômicos e financeiros que não hesitam em transformar o Estado em mero coletor de impostos para – via metas fiscais devoradoras de vidas e do futuro  – honrar os juros e o principal de uma dívida que cresceu exponencialmente sem que novos aportes significativos de recursos tenham sido feitos pelos credores – o câmbio e a política monetária transformando passivos em intermináveis contas a pagar, sem contrapartida para quem paga: os pobres, predominantemente, vitimados por um sistema tributário absurdamente regressivo e deixados à míngua pelo abandono de políticas públicas, sob argumento da necessidade de restrições fiscais.

Dizem haver solução diferente de eleições diretas, já. Há quem acredite. Há quem não. Hão quem esteja em dúvida. O que fazer para resgatar a política que o Estado policial velado está manietando e torturando sem piedade, embora deixando a solta os piores políticos que este país já teve, posando de salvadores da pátria? Que pátria, cara-pálida?

André Rehbein Sathler: Economista, professor do Mestrado em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados
Valdemir Pires: Economista, chefe do Departamento de Administração Pública da UNESP

==> Foto: Divulgação

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